Desequilíbrio na condição de saúde mental em mães no período da pandemia

Sobre o trabalho

Esse artigo é fruto de um trabalho conjunto de Livia Fontenele, Heloisa Paolloze, Aline Carvalho, Alessandra Rodrigues da Silva e Giovanna Luchetta, para a formação do curso Data Leadership for Business, da Tera, em dezembro de 2020.

Definição da temática

Tão logo nos foi feita a provocação de pensar em problemas que se fizeram (ainda mais) relevantes durante a pandemia de Covid-19, em 2020, Aline e Heloísa, juntamente, propuseram abordar a temática da saúde mental para o projeto.

Ao decorrer da organização dos grupos e de, enfim, fecharmos as integrantes da equipe, passamos por alguns momentos de brainstorms para chegar ao problema específico, dentro do espectro da temática da saúde mental, que gostaríamos de abordar.

Pensamos em falar sobre saúde mental de idoso, crianças, médicos da linha de frente, até que chegamos em um ponto onde todas, em um grupo formado apenas por mulheres, percebemos a importância de abordar o subtema que, por fim, escolhemos.

A temática do trabalho foi então definida como “aumento da depressão e ansiedade em mães durante a pandemia” e, a partir desse tema, escrevemos o que viria a ser nosso problema, ou seja, a motivação de nossa pesquisa e coleta de dados.

O problema e a ótica

Ao concordar com a temática, concordamos também que gostaríamos de tomar uma ação ativa, dessa forma optamos por enxergar o problema por uma ótica mercadológica, nos colocando como consultores de uma plataforma de terapia online e cuidados da saúde mental, no caso, pensamos de forma fictícia na Zenklub.

Utilizamos uma empresa já existente no mercado para nos desafiarmos a olhar a possível solução do problema como um entregável para esse mercado, seja no desenvolvimento de um novo serviço ou produto.

Optamos também por utilizar a Zenklub para nossa ótica por acreditarmos na importância do propósito da marca, principalmente nesse momento, que é e também por acreditar que eles têm buscado bastante tornar possível a missão de “democratizar a conexão com a saúde emocional nesse momento tão sensível”.

A partir dessa ótica delimitamos o problema como o “entendimento do desequilibro na condição de saúde mental em mães no período da pandemia”.

Importante assinalar que, para o contexto deste trabalho, utilizaremos a definição de saúde da OMS: “Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a mera ausência de doença ou enfermidade”.

Utilizando também os fatos apontados pela própria OMS para a definição do que é saúde mental:

  • A saúde mental é mais do que a ausência de transtornos mentais;
  • A saúde mental é uma parte integrante da saúde, não havendo saúde sem saúde mental;
  • A saúde mental é determinada por uma série de fatores socioeconômicos, biológicos e ambientais;
  • Estratégias e intervenções de saúde pública, envolvendo diversos setores da sociedade, existem para promover, proteger e restaurar a saúde mental.

Contexto

Antes mesmo da pandemia de Coronavírus que iniciou em 2019 e atingiu o Brasil com força total em fevereiro de 2020, as doenças de saúde mental, principalmente depressão e ansiedade já afetavam a população do país.

, ou seja, pelo menos cerca de 3,4% dos 7,7 bilhões da população mundial.

Observando apenas o Brasil, vemos que o país se enquadra em uma posição de destaque na incidência de depressão, sendo o país do continente latino-americano com a maior taxa, impactando . Enquanto a ansiedade afeta quase 10% dos brasileiros, que manifestam sintomas como ataques de pânico, fobias, transtornos obsessivos compulsivos, estresse pós-traumático e ansiedade generalizada.

Em “”, pesquisa de Hannah Ritchie and Max Roser (2018), encontramos também dados referentes à quantidade da população mundial que lida com transtorno de ansiedade. Por questões práticas, nos focaremos nessas duas principais condições de saúde mental.

Na tabela ao lado, ainda é possível observar que entre as pessoas que apresentam essas condições, as mulheres são a maioria, sendo quase o dobro da quantidade de homens.

Ainda no estudo de Ritchie e Roser (2018), é pontuado que a OMS também sintetiza alguns fatores que podem contribuir (negativa ou positivamente) para as condições de saúde mental do indivíduo. Como mostra o quadro abaixo, são 3 níveis: atributos individuais, circunstâncias sociais e fatores do ambiente, podendo ser classificados como adversos ou protetores.

A partir dessa tabela, podemos notar que alguns desses fatores adversos estiveram em uma acelerada ascensão durante a pandemia do Covid-19, que fez com que as pessoas entrassem em quarentenas, lockdown, além de lidar com problemas de saúde, luto, desemprego e diversas outras dificuldades. Para melhor percepção, circulamos os fatores adversos que a pandemia trouxe consigo.

Com os dados apresentados acima já é possível perceber que a depressão já é, há algum tempo, um fator de preocupação para a saúde pública mundial. Porém, queríamos entender ainda mais como esse quadro evoluiu nos últimos meses.

Ainda são poucos os estudos realmente massivos sobre o assunto, porém alguns estudos preliminares, ainda que com amostras pequenas, já nos mostram a evolução desse quadro.

Um indicador de fácil acesso é a quantidade de pesquisas no Google, observado por meio do Google Trends, ferramenta que apresenta o volume de pesquisas de um termo durante um determinado período.

Buscas relacionadas à depressão, no mundo todo, tiveram o seu maior pico dos últimos 5 anos no mês de junho/2020.

Além da ferramenta do Google Trends, analisamos também uma pesquisa da Mental Health America, uma plataforma estadunidense especializada em saúde mental.

Na plataforma, é possível realizar testes, chamados screenings, para entender se existe possibilidade das pessoas terem alguma condição de saúde mental. Após o teste, a pessoa recebe orientações de como procurar ajuda e quais atividades poderiam ajudá-la a passar por esse momento.

Para além da função de diagnóstico da ferramenta, a MHA também a utiliza para coleta de dados. Dados estes que foram sumarizados no estudo “”. Trazemos aqui alguns dados que ilustram o quadro da percepção da saúde mental durante a pandemia do Covid-19.

A partir desses dados, podemos concluir que sim, o cenário da saúde mental foi alterado e agravado com a pandemia do Covid-19, porém, como já explicitamos anteriormente, queríamos aplicar um recorte mais específico em cima dessas informações.

O recorte: mães

Ao escolhermos falar sobre saúde mental, nos deparamos com a informação, citada acima, de que mulheres são uma parcela consideravelmente maior da população com condições como depressão e ansiedade. Por conta dessa informação, ficamos curiosas para entender mais sobre uma parcela específica dessas mulheres, as mães.

Muitas pesquisas apontam que, em todo o mundo, as mulheres foram as que mais sofreram com os impactos do Coronavírus. O estudo “”, realizado nos Estados Unidos, pela USC com apoio da Bill and Melinda Gates Foundation, mostra que as mulheres sem graduação foram a parcela da população americana que mais perdeu empregos durante a pandemia.

Enquanto isso, as mulheres com crianças, ou seja, mães, foram as que mais tiveram experiências com transtornos psicológicos.

A análise descobriu também que mais mulheres tomam conta das obrigações referentes aos cuidados das crianças enquanto as escolas estão fechadas. Em abril de 2020, 44% das mulheres reportaram serem as únicas pessoas no domicílio a prover cuidado, enquanto só 14% dos homens reportaram o mesmo.

Em , nos Estados Unidos, observa-se que uma em cada quatro mães com emprego, 25%, está pensando em reduzir sua jornada de trabalho ou, inclusive, pedir demissão. No caso dos homens, esta situação só representa um problema para 11% dos pais pesquisados.

A culpa por não alcançar um bom desempenho ou serem julgadas negativamente no trabalho por culpa das responsabilidades em casa é a principal responsável pelos pedidos de redução ou demissão.

Essa pressão é mais intensa para as mães que ocupam cargos executivos ou de média gerência. Quase três em cada quatro mães com cargos de responsabilidade reconhecem sofrer a síndrome do burnout, ou seja, estão se sentindo esgotadas.

Em uma pesquisa realizada por Dib S, Rougeaux E, Vázquez-Vázquez A, Wells J*, Fewtrell MS, chamada “The impact of the COVID-19 lockdown on maternal mental health and coping in the UK: Data from the COVID-19 New Mum Study”, conduzida na Inglaterra, com 1.329 mulheres, mães de crianças de até 12 meses, algumas tendências similares às apontadas acima foram percebidas.

Na tabela acima, marcamos alguns pontos que se relacionam com a piora do estado de saúde mental materno.

Ainda no mesmo estudo, temos uma tabela (abaixo) com algumas respostas relacionadas a hábitos de cuidados, seja frequência de cuidados com a saúde, participação de grupos de mães e contato com profissionais de saúde.

É importante apontar que apesar da maioria (58,8%) dessas mulheres considerarem que estão tendo suporte suficiente para a sua saúde mental, apenas 7% delas tiveram consultas com profissionais de saúde mental na semana anterior.

Outro ponto importante, também trazido na tabela ao lado, é a pergunta relativa à equidade na divisão de tarefas da casa entre os moradores dela. É notável que em sua maioria não há qualquer divisão, o que coloca 37,1% das mulheres dessa amostra responsáveis por todas as tarefas da casa, além dos cuidados das crianças.

Um mergulho mais profundo: mães brasileiras

Entendemos sobre o impacto da saúde mental na população do mundo e como essas questões se tornaram ainda mais latentes durante a pandemia, passamos também pela comprovação de que mulheres são a maioria das pessoas afetadas por essa condição e trouxemos um olhar especial para o grupo de mães.

Sobre mães e saúde mental durante a pandemia, tivemos a chance de observar que elas estão em vulnerabilidade, com os trabalhos dentro de casa e a demanda por cuidado aumentando consideravelmente devido ao fechamento de escolas, o que as coloca em situações de alto estresse e possível desenvolvimento de condições desestabilizadoras da saúde mental.

Com o objetivo de deixar o projeto ainda mais robusto e com mais possibilidade de trazer insumos para o mercado da saúde mental brasileiro, optamos por respirar ainda mais fundo e nos aventurar em uma camada ainda mais específica. Queremos entender como a pandemia está afetando a saúde mental das mães brasileiras.

Para iniciar esse mergulho, optamos por entender o cenário brasileiro, utilizando dados coletados pela ONG , com fontes como Instituto Locomotiva, IBGE, PNAD e USP.

Segundo dados do segundo trimestre de 2020, medidos pela pesquisa Pnad Contínua, do IBGE, no subgrupo de mulheres com filhos de até dez anos, a participação delas no mercado caiu de 58,3% no segundo trimestre de 2019, para 50,6% no segundo trimestre de 2020.

Na prática, só a metade delas, portanto, está no mercado profissional, porém a porcentagem de mulheres que dizem cuidar do lar, segundo o , é de 91%, enquanto apenas 55% dos homens brasileiros afirmam o mesmo.

As mulheres, trabalhando fora ou não, têm que lidar com o chamado “trabalho invisível”, conhecido como o cuidado da casa e de seus moradores.

Um pesquisa global da aponta que a pandemia aumentou o abismo na divisão de tarefas não remuneradas. No Brasil, 43% das mulheres entrevistadas em maio, contra 35% dos homens, concordaram fortemente com a frase: “Tive que assumir muito mais responsabilidade pelas tarefas domésticas e cuidados com crianças e família durante esta pandemia”.

Outra pesquisa recente chamada ", realizada pela ONG “Gênero e Número” e pela Organização Feminista “Sempreviva”, concluiu que entre as 2.641 mulheres entrevistadas, 47% afirmaram ser responsáveis pelo cuidado de outra pessoa: 57% são responsáveis por filhos de até 12 anos, 6,4% afirmaram ser responsáveis por outras crianças, 27% afirmaram ser responsáveis por idosos e 3,5% por pessoas com alguma deficiência.

Apesar de ser complicado associar o trabalho invisível aos casos de desequilíbrio na condição de saúde mental, por não existir dados que façam correlações diretas à esses dois fatores, é possível afirmar que ambos, tanto quantidade de dedicação ao trabalho invisível, quanto casos relacionados à depressão e ansiedade aumentaram globalmente e localmente no Brasil. Como, por exemplo, mostra a realizada com mais de 7 mil mulheres brasileiras, onde 60% das mulheres afirmam sentir o impacto do isolamento social na saúde emocional, inclusive, 79% destas destacam a ansiedade como um desses impactos.

A partir desses dados, podemos assinalar que existe uma tendência global de comportamento em que as mulheres tendem a se sentir sobrecarregadas com o aumento ou a continuidade da sua carga de “trabalho invisível”, enquanto, em paralelo, lidam com as situações de solidão, tristeza e preocupação decorrentes do isolamento e da pandemia, que podem ser consideradas condições de desequilíbrio de saúde mental.

Hipóteses

Após entendermos, de maneira geral, o problema que estava em nossas mãos, começamos a aplicar a ótica do mercado em cima dele, elaborando perguntas para serem respondidas durante nossas análises. Algumas delas foram:

  • As mães brasileiras sabem identificar condições de saúde mental?
  • Existiria demanda para um serviço que atuasse com esse público?
  • Após o reconhecimento ou não do problema, elas querem ajuda?
  • O que essas mães reconhecem como ajuda?
  • As mães acham tratamentos de saúde mental caros?

É importante relembrar que essas foram algumas apenas, pois, perguntas, tínhamos várias. Então, para tornar essas dúvidas mais palpáveis, transformamos as perguntas em hipóteses.

As hipóteses definidas como centrais foram:

  1. Essas mães que tem condições de saúde mental com depressão e ansiedade são de classe social mais baixa
  2. As mães não sabem que tem uma condição de saúde mental
  3. As mães não têm tempo para cuidar da saúde mental
  4. As mães não querem (ou podem) dedicar parte do orçamento mensal para cuidados de saúde mental

Abaixo vamos nos dedicar a explicar sobre a exploração dessas hipóteses e os resultados que encontramos nos dados.

Importante lembrar que durante a exploração dessas hipóteses tivemos encontros com respostas negativas, positivas e até respostas não conclusivas, que ainda que não tragam definições acrescentam conhecimento à pesquisa presente.

Hipótese: Essas mães (que tem condições de saúde mental como depressão e ansiedade) são de classe social mais baixa

Em pesquisa, realizada com duas mil pessoas no Brasil, de nome “COVID-19 e saúde mental no Brasil: sintomas psiquiátricos na população em geral”, é concluído que:

“Entre os determinantes dos resultados de saúde mental, sexo feminino, idade mais jovem, menor nível educacional, baixa renda e maior período de distanciamento social estiveram fortemente associados aos níveis de ansiedade, depressão e PTSD”.

Diante do dado apresentado acima, é possível afirmar que mulheres de classe mais baixa estão mais propensas a ter uma condição de saúde mental. Porém, não conseguimos dizer com certeza que essas mulheres são mães.

Durante nossos esforços para entender melhor essa hipótese e, talvez, encontrar uma relação entre mulheres de classe baixa, maternidade e saúde mental, chegamos também ao dado de que a maternidade/fecundidade tende a ser maior em parcelas da população de renda mais baixa.

É o que mostra o gráfico abaixo, presente na pesquisa, que apresenta a taxa de fecundidade em seu eixo y e idade das mulheres no eixo x.

Dica de leitura: Neste gráfico, cada quintil representa 20% de mulheres em uma faixa de rendimento, sendo o quintil 1 as 20% com renda mais baixa e o quintal 5 as 20% mulheres com renda mais alta.

Utilizando da relação entre a quantidade de mulheres de classe social mais baixa com a maior taxa de fecundidade, é possível afirmar que entre essas mulheres de classe baixa que relataram apresentar desequilíbrio nas condições de saúde mental durante a pandemia, existem sim muitas mães o que corrobora para acreditarmos que nossa hipótese é sim verdadeira.

Hipótese: As mães não sabem que tem uma condição de saúde mental

Para validar essa hipótese, analisamos mais dados presentes no estudo do projeto (citado acima), que apontam que 84% das mulheres atendidas pelo projeto solicitaram apoio psicológico nos seis últimos meses.

Em um compilado de pesquisas apresentado pela UOL com o título , destacamos uma citação de Guilherme Polanczyk, psiquiatra brasileiro, que aponta: “Os mais atingidos provavelmente serão as crianças e os adultos mais pobres, cujo problema nem chega a ser detectado em levantamentos on-line”, diz. “Em nosso estudo, observamos que o número de crianças e adultos com sintomas clínicos é de duas a três vezes maior entre os de nível socioeconômico mais baixo do que entre os mais ricos. Para melhorar a situação deles, será necessária a atuação do Estado.”

Inspiradas pela falta de dados, enveredamos por discussões que nos fizeram refletir que é possível que as pesquisas em questão tenham a probabilidade de serem respondidas por pessoas mais ricas, com maior escolaridade e melhor acesso à rede do que as que se encontram no outro extremo socioeconômico.

Também é esperado que um número maior de indivíduos com alguma condição de saúde mental dedique algum tempo para responder às questões do que aqueles que se sentem saudáveis.

Portanto, consideramos que com a quantidade atual de dados, não conseguimos nem provar, nem refutar, a hipótese em questão.

Hipótese: As mães não têm tempo para cuidar da saúde mental

Como já mostrado no contexto do projeto, as mães vêm enfrentando, não apenas, mas com agravamento, durante a pandemia do Covid-19, um aumento na quantidade de “trabalho invisível”.

No relatório da ONU Mulheres, batizado de descobriu que tanto homens quanto mulheres tiveram um aumento não remunerado de trabalho profissional. Cerca de 60% das mulheres e 54% dos homens afirmaram aos pesquisadores ter visto crescer o tempo gasto em tarefas domésticas desde que a pandemia começou. No entanto, as mulheres relatam uma intensidade maior destas tarefas extras, e por períodos mais longos de tempo, do que os homens.

Em uma roda de conversa realizada pela , discutiu-se bastante sobre a relevância do tema, como as mães, crianças e famílias tem se sentido perante ao isolamento social e a necessidade de buscar/oferecer ajuda, porém ainda sem dados apresentados sobre o assunto.

Devido a falta de dados, não podemos ter uma resposta concreta para a hipótese de que as mães não teriam tempo disponível para realizar atividades que a ajudassem a cuidar da sua saúde mental. Porém, sabemos que as mães estão passando por um desafio maior que homens ou mulheres sem filhos diante do aumento de trabalho invisível e, por mais que entendam a importância de realizar atividades para o seu próprio bem estar mental, nos perguntamos se é possível que consigam agregar práticas de cuidado da saúde mental em seus cotidianos já repletos de tarefas que precisam ser exercidas, com a casa, filhos e o trabalho remoto.

Hipótese: As mães não querem (ou podem) dedicar parte do orçamento mensal para cuidados de saúde mental

Durante nossas pesquisas de contexto, chegamos aos dados de que mulheres de classes mais baixas têm uma maior tendência de apresentar desequilíbrio das condições de saúde mental. A partir desses dados quisemos saber se as mães que sofrem também dessas condições podem ou querem dedicar parte de seus orçamentos mensais para os cuidados com a saúde mental.

Em pesquisa do , a participação das mulheres no mercado de trabalho é a menor em 30 anos. A maior queda na participação no mercado de trabalho foi entre as mulheres que têm filhos pequenos, de até dez anos e até 50% dessas mulheres estão desempregadas.

O estudo do projeto “”, que já citamos algumas vezes, mostra que, em pesquisa com as mais de 1.700 mães ajudadas por eles, 8 em cada 10 dizem que sua renda já caiu por causa do coronavírus e que 92% afirmam que a alimentação de sua família ficará prejudicada pela ausência de renda durante o isolamento.

Temos confirmação, por meios de dados, que a renda das mães brasileiras diminuiu consideravelmente durante a pandemia do Covid-19, porém ao buscar a resposta para nossa hipótese não encontramos dados correlatos que especificasse onde elas estão dispostas a investir essa já tão diminuída renda.

Em tempo, segundo uma pesquisa realizada pelo instituto , apenas 2% da população adulta dos principais centros urbanos do país faz terapia atualmente. Essa quantidade vem crescendo, segundo , porém também não temos dados suficientes para validar se as pessoas, de um modo geral, vão, de fato, realizar terapia.

Porém, ainda que sem os dados comprobatórios, é possível supor diante dos dados de desemprego e queda de renda que estas mulheres não terão possibilidade de investir em coisas que não considerem tão essenciais quanto moradia e alimentação.

Conclusão

A partir do processo de análise e validação das hipóteses, percebemos a predominância de dois fatores com alto poder de influência na saúde mental de mães: tempo disponível e questões financeiras.

A falta de tempo foi intensificada principalmente pelo fechamento das escolas e creches e pelo aumento da carga de trabalho invisível e formal, que reduziu a quantidade de horas livres para lazer e descanso.

Já as questões financeiras são importantes fatores tanto para mães desempregadas, como àquelas que possuem fonte de renda, dado o cenário de incerteza quanto à permanência ou não do emprego ou demanda, no caso de autônomas e empresárias. A situação econômica do país, com aumento de preços e desvalorização da moeda também intensificam a preocupação com dinheiro.

Ambos problemas tendem a continuar presentes mesmo após a pandemia, dado que, como mostrado anteriormente na comprovação das hipóteses, a participação das mulheres no mercado de trabalho no Brasil é a menor em 30 anos, o que ilustra o retrocesso causado pelo Covid-19.

Retrocesso esse que causa um abismo que será deixado mesmo após sua cura, visto que muitas empresas foram fechadas, diminuindo os postos de trabalho, e também devido à visão machista da sociedade brasileira que coloca as mulheres em posição inferior devido à carga de responsabilidades e cuidados com outras pessoas destas serem maiores que as dos homens.

Decisão e recomendações

Para construir possíveis ações para solucionar o gap de mercado voltado para mães que estão passando por desequilíbrio de condições de saúde mental deixado pela pandemia, optamos apresentar 3 diferentes cenários de futuro, suas configurações, dados que demonstrem a sua razão de acontecer e ações que podem ser realizadas uma vez que o cenário se comprovar.

Cenários:

  1. A busca por soluções de saúde mental pelas mães vai aumentar
  2. A condição vai se manter como uma doença silenciosa
  3. A pandemia invisível vai sofrer com a limitação de acesso a tratamento psíquico

Cenário 1:
A busca por soluções de saúde mental pelas mães vai aumentar

De acordo com a publicação da BBC, , “No curto prazo, o resultado é mais insônia, irritação, dificuldade de concentração, compulsões ou consumo de álcool e remédios. No longo prazo, isso pode virar depressão e problemas que exijam uma intervenção (psiquiátrica) mais clara e complexa, com consequências a médio e longo prazo. Lembrando que a depressão e o burnout estão entre as maiores causas de afastamento no trabalho.”

Em fevereiro, a revista científica The Lancet publicou uma revisão de estudos acadêmicos prévios que pesquisaram os impactos do isolamento social em famílias, concluindo que “a maioria dos estudos revisados reportava efeitos psicológicos negativos, como sintomas de estresse pós-traumático, confusão e raiva. Os (fatores) estressores incluíam a longa duração da quarentena, medo da infecção, frustração, tédio, falta de suprimentos adequados, informação inadequada, perdas financeiras e estigma”.

  • Por quê achamos esse cenário possível?

Em 13 de maio, a Organização das Nações Unidas (ONU) publicou um relatório chamando a atenção de governos do mundo todo para que adotem medidas para reduzir o possível impacto da pandemia de Covid-19 sobre a saúde psíquica da população. “A saúde mental e o bem-estar de sociedades inteiras foram severamente afetados por essa crise e são uma prioridade que deve ser tratada com urgência”, informa o documento. “É provável que haja um aumento duradouro no número e na gravidade dos problemas de saúde mental.”

  • Qual problema esse cenário está resolvendo?

Nesse cenário, entendemos que uma parte do nosso problema foi resolvida, que é de reconhecer que existe um desequilíbrio na condição de saúde mental, seja estresse, ansiedade, depressão ou outros. Portanto, o problema ainda a ser resolvido é ajudar a buscar o tratamento.

  • Como comprovar que esse cenário está se tornando realidade?

Pontos gerais como: Aumento na procura por saúde mental, ansiedade, depressão via Google Trends, aumento de cadastros no site da Zenklub

Porém, os pontos acima ainda não provam exatamente que mães aumentaram a busca, portanto, seria importante adicionar: pesquisa com as novas pessoas cadastradas para saber se elas são mães.

  • Dentro desse cenário, o que pode estar impedindo a conversão de mães?

Temos 2 premissas com base nos dados e nas hipóteses que comprovamos, que podem impactar a conversão na busca de tratamento:

Falta de dinheiro para investir (trataremos desse caso mais profundamente no cenário 3) e falta de tempo, dada a quantidade de trabalho invisível que as mulheres e principalmente mães têm que realizar.

  • Quais recomendações possíveis para ajudar na busca por ajuda em mães com pouco tempo?

Pode ser importante, até para não negligenciar uma situação mais grave, entender qual a gravidade da condição de saúde mental da pessoa, por meio de questionários e monitorar isso semanalmente, por exemplo, com registros de humor e sentimentos. Esse termômetro pode ajudar também a recomendar a ação ideal de tratamento.

Caso seja uma situação que aparentemente é estresse ou algum nível de ansiedade, poderia recomendar formas de relaxamento durante o dia (meditações, por exemplo), ou recomendar podcasts ou conteúdos de especialistas com formas de cuidar da saúde mental (como cuidado com alimentação e exercícios, que podem auxiliar nesse processo)

Caso seja identificada uma situação com necessidade de tratamento com especialista, poderia sugerir pacote de sessões de terapia de 30 min, 2x por semana, para que essas mães consigam encaixar isso na rotina.

  • Qual a definição de sucesso dessas ações?

Maior conversão de mães realizando terapia.
Frequência de acesso aos conteúdos e/ou relaxamentos.

Cenário 2: A condição vai se manter como uma doença silenciosa

Segundo informações da matéria "", alguns especialistas sugeriram que os problemas de saúde mental podem, eles próprios, transformarem-se em uma nova pandemia. Por ora, no entanto, não é possível saber a dimensão que o problema pode assumir. “Não houve tempo suficiente para coletar dados que permitiriam responder adequadamente a essa questão”, afirmou a psiquiatra norte-americana Carol S. North, especialista em traumas e desastres do Centro Médico Sudoeste da Universidade do Texas, por e-mail a Pesquisa FAPESP. Para North, as pesquisas feitas em pandemias anteriores, como a da Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars), em 2003, são limitadas. “Precisamos esperar que bons dados mostram como a Covid-19 está afetando as pessoas”, propõe.

Por isso, avaliamos a possibilidade das mães no período pós-pandemia continuarem sem conseguir identificar doenças mentais, ou seja, sem experimentar a auto percepção com relação a identificação de doenças mentais (awareness).

  • Por que achamos esse cenário possível?

A partir do momento que a mãe não percebe que precisa de ajuda ou não reconhece os sintomas relacionados à saúde mental, ela não procura ajuda, e, consequentemente, não inicia o tratamento necessário. Devido à relevância deste tema, o deram início a uma campanha para promover a saúde mental no contexto da COVID-19, uma forma de apoiar as pessoas a lidarem com os efeitos negativos da pandemia causada pelo novo coronavírus, além de orientações técnicas relacionadas à saúde mental e psicossocial.

  • Qual problema esse cenário está resolvendo?

A dificuldade das mães identificarem doenças mentais, que podem ter sido desencadeadas devido à sobrecarga de estresse gerada pelas mudanças e o surgimento das adversidades neste período de pandemia. Os problemas consistem em sentimentos e emoções que podem ou não surgir em resposta a mudanças no ambiente e causam desconforto emocional, afetando a capacidade de executar as atividades cotidianas.

  • Como comprovar que esse cenário está se tornando realidade?

Pelo aumento de casos de mães com sintomas de condição mental, porém este dado ainda é desconhecido, então podemos correlacioná-lo ao acréscimo das buscas por temas relacionados (Google Trends). E, como não existem testes físicos ou exames que indiquem de forma confiável se uma pessoa desenvolveu uma doença mental, deve-se estar atento aos sinais de um distúrbio de saúde mental. A boa saúde mental depende de um equilíbrio de fatores: vários elementos da vida, do cotidiano e do mundo em geral podem contribuir com os distúrbios. Esses sentimentos podem ser intensos, mas temporários. Com o apoio certo e ajuda é possível buscar a recuperação.

  • Dentro desse cenário, o que pode estar impedindo a conversão de mães?

O medo de descobrir que ela tem um problema de saúde mental devido aos mitos relacionados ao tema (tabus e preconceitos) e a dificuldade na identificação (awareness), em assumir sua experiência e a tomar consciência da própria necessidade.

  • Quais recomendações possíveis para ajudar mães com desequilíbrio de condição de saúde mental nesse cenário?

Criação de programas para esclarecimento da população, estando contido neste cenário às mães, possibilitando entendimento no tema e eliminando velhos preconceitos existentes na própria sociedade;

Tornar acessível as formas de identificação, divulgação dos sinais de um distúrbio de saúde mental, por diversos canais, com linguagens simples, que possibilitem uma identificação inicial, levando a mãe a dar o primeiro passo na busca pela ajuda.

Qual a definição de sucesso dessas recomendações ou ações?

Maior quantidade de mães com consciência de sua saúde mental fragilizada;

Aumento de casos de tratamento a doenças mentais em mães de forma prematura (em estágios iniciais, não sendo necessários o uso de medicações);

Maior quantidade de mães com condições de saúde mental em tratamento.

Cenário 3: A pandemia invisível vai sofrer com a limitação de acesso a tratamento psíquico

  • Por quê achamos esse cenário possível?

Ainda de acordo com a matéria "", vimos que o cenário pós-pandemia pode gerar sobrecarga nos sistemas de saúde e, no Brasil, aprofundar as desigualdades sociais no acesso ao tratamento psíquico.

Neste sentido, mesmo que modesto, um aumento nos casos de transtorno psiquiátrico deve sobrecarregar um sistema de saúde despreparado para lidar com o problema. “O sistema de saúde brasileiro foi organizado para atender casos graves, como esquizofrenia e transtorno bipolar”, lembra o psiquiatra Jair Mari, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Pessoas com depressão, ansiedade, síndrome do pânico ou problema de adição a drogas vivem no limbo.” Estudos coordenados por Mari já indicaram que o Brasil tem proporcionalmente poucos psiquiatras (3,2 para cada 100 mil habitantes; nos países ricos essa proporção é 20 vezes maior) e que 85% das pessoas com um diagnóstico de transtorno mental não recebem tratamento medicamentoso que poderia controlar o problema.

  • Qual problema esse cenário está resolvendo?

O possível desequilíbrio de demanda e oferta de tratamento, após a intensificação de problemas de saúde mental no país, decorrente da pandemia de Coronavírus e da falta de preparo público e privado para suportar o atendimento a transtornos mentais, seja pelo baixo número de profissionais na área, ou pela falta de verba e incentivos do governo.

  • Como comprovar que esse cenário está se tornando realidade?

Para saber se este cenário vai se concretizar, informações como o crescimento de casos clínicos diagnosticados e a quantidade de consultas realizadas por profissional em relação à sua capacidade de atendimento deverão ser observadas, tanto no âmbito público, como privado, a fim de validar a sobrecarga do sistema e limitação de acesso. Pesquisas também podem auxiliar nessa constatação.

  • Dentro desse cenário, o que pode estar impedindo a conversão de mães?

As mesmas premissas de falta de tempo e dinheiro, este último com maior intensidade, dado que “Os mais atingidos provavelmente serão as crianças e os adultos mais pobres, cujo problema nem chega a ser detectado em levantamentos on-line”, diz Polanczyk. Em estudo, foi observado que o número de crianças e adultos com sintomas clínicos é de duas a três vezes maior entre os de nível socioeconômico mais baixo do que entre os mais ricos. No entanto, para melhorar a situação deles, será necessária a atuação do Estado.

  • Quais recomendações ou ações possíveis para ajudar mães com desequilíbrio de condições de saúde mental nesse cenário?

Visto isso, pensamos em duas soluções que poderiam ajudar a atenuar o problema e seriam oportunidades de negócio para a Zenklub: formatos de teleterapia em grupo, em que o profissional atende de duas a oito pessoas durante as sessões, que aumentariam a capacidade de atendimento dos profissionais existentes e barateariam o serviço, permitindo que mais pessoas tenham acesso a tratamento. Este formato permitirá que as mães discutam seus problemas de forma coletiva, o que pode auxiliar no tratamento por gerar identificação e sensação de pertencimento, construindo pequenas redes de apoio entre elas, que poderão ajudar umas às outras com o compartilhamento de experiências.

Novas formas de ajuda psicológica também poderiam passar a fazer parte do portfólio de serviços da plataforma, como a disponibilização de conteúdos educativos gravados (chamado psicoeducação), sobre os principais transtornos observados em mães, discutindo temas importantes e ensinando exercícios práticos com técnicas para reduzir o estresse e melhorar a relação destas mulheres com seus pensamentos e angústias relativos à maternidade, trabalho invisível e sobrecarga emocional. Trata-se de um formato escalável e rentável, que pode ser monetizado por meio do modelo de assinatura, contando com a própria rede de profissionais para a criação do conteúdo.

  • Qual a definição de sucesso dessas ações?

A taxa de adesão aos novos formatos de teleterapia em grupo com temáticas relacionadas aos problemas enfrentados por mães poderão validar a eficácia da ação, bem como a frequência de acesso aos conteúdos educativos e a avaliação de qualidade deles, a fim de entender quão útil o material foi para o público.

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